O brasileiro é apaixonado por carros, e a Receita Federal é apaixonada por saber como você pagou por eles. A declaração de veículos no Imposto de Renda 2026 traz detalhes que, se ignorados, podem fazer seu patrimônio parecer "incompatível" com a sua renda.
A maior pegadinha acontece com os veículos financiados. Diferente de um empréstimo bancário comum, o financiamento de veículo (CDC/Leasing) segue uma regra própria de preenchimento que contradiz o senso comum.
Neste guia prático, vamos te ensinar a lançar seu carro, moto ou caminhão, seja ele pago à vista, parcelado ou vendido durante o ano de 2025.
Regra Geral: Onde Declarar?
Veículos são considerados patrimônio. Portanto, o lugar deles é sempre na ficha de "Bens e Direitos".
Grupo: 02 - Bens Móveis.
Código: 01 - Veículo automotor terrestre (caminhão, automóvel, moto, etc.).
Número do RENAVAM: Campo obrigatório. Tenha o documento em mãos.
Cenário 1: Veículo Quitado (Comprado à vista ou pago antes de 2025)
Este é o cenário mais simples. Se você já tinha o carro quitado antes de 2025 e continuou com ele:
Discriminação: Informe marca, modelo, ano de fabricação, placa e de quem comprou (se foi loja ou pessoa física).
Situação em 31/12/2024: Repita o valor que estava na declaração anterior (Custo de Aquisição).
Situação em 31/12/2025: Repita o mesmo valor.
Atenção: Jamais atualize o valor do carro pela Tabela FIPE. Carros desvalorizam, mas para a Receita, o valor fiscal é sempre o preço que você pagou na compra. Mantenha o valor histórico.
Cenário 2: Veículo Financiado (A Grande Dúvida)
Aqui reside o erro de 90% dos contribuintes. Não declare o financiamento do carro na ficha de "Dívidas e Ônus Reais".
Para a Receita, o veículo financiado é um bem que você vai adquirindo "aos pedacinhos". Você deve declarar apenas o que efetivamente pagou até aquela data.
Como fazer: Imagine que você comprou um carro de R$ 60.000,00 em 2025. Deu R$ 10.000,00 de entrada e pagou 10 parcelas de R$ 1.000,00 no ano.
Total pago em 2025: R$ 20.000,00.
Na ficha "Bens e Direitos", deixe o campo "Situação em 31/12/2024" em branco (pois você não tinha o carro).
No campo "Situação em 31/12/2025", coloque R$ 20.000,00 (a soma da entrada + parcelas pagas no ano).
Na Discriminação, conte a história completa: "Veículo adquirido da Concessionária X, valor total R$ 60 mil, financiado pelo Banco Y em 48x, sendo pagos R$ 20 mil em 2025".
Nos anos seguintes, você vai somando as parcelas pagas ao saldo anterior, até atingir o valor total ao final do financiamento.
Cenário 3: Veículo Comprado em 2025
Se você comprou à vista em 2025:
Situação em 31/12/2024: R$ 0,00.
Situação em 31/12/2025: O valor total pago (ex: R$ 80.000,00).
Informe o CPF/CNPJ do vendedor na discriminação.
Cenário 4: Veículo Vendido em 2025
Se você tinha um carro e o vendeu no ano passado, precisa dar baixa nele.
Discriminação: Escreva "Veículo vendido para Fulano (CPF XXX) na data XX/XX/2025 pelo valor de R$ XX".
Situação em 31/12/2024: O valor que constava na declaração anterior (custo de aquisição).
Situação em 31/12/2025: R$ 0,00 (pois você não tem mais o bem).
E se houve lucro? Se você vendeu o carro por um valor maior do que comprou (o que aconteceu muito com carros usados em 2021/2022, mas estabilizou agora), esse lucro é tributável se a venda superou R$ 35.000,00. Se houve ganho de capital, ele deve ser apurado no GCAP (veja nosso artigo anterior sobre GCAP). Se vendeu por menos do que pagou (prejuízo), não há imposto, basta zerar o saldo.
Cenário 5: Perda Total (PT) ou Roubo
Se o carro foi roubado ou sofreu perda total e você recebeu o seguro:
Na Discriminação, relate o fato: "Veículo roubado/sinistrado em XX/XX, com indenização recebida da Seguradora X".
Situação em 31/12/2025: R$ 0,00.
A indenização recebida deve ser declarada na ficha "Rendimentos Isentos e Não Tributáveis", linha 03 (Capital das apólices de seguros).
Se a indenização foi maior que o valor declarado do carro, a diferença é isenta.
Se você usou o dinheiro para comprar outro carro, abra um novo item em Bens e Direitos para o novo veículo.
Conclusão
Declarar veículos é um exercício de somar parcelas. Mantenha seus comprovantes de pagamento do financiamento guardados. Eles são a prova de que seu patrimônio cresceu de forma compatível com seus pagamentos mensais.
Falando em investimentos conservadores e segurança... Muitos contribuintes têm dinheiro parado na conta ou investido em CDBs. Como informar esses saldos e os rendimentos que o banco te mandou?
No próximo artigo: Tesouro Direto, CDB e Renda Fixa: Como Informar Seus Investimentos Corretamente.