Depois de preencher toda a sua declaração, informar salários, bens e despesas, chega o momento final: escolher o regime de tributação. O sistema da Receita Federal oferece duas portas de saída: o Modelo por Deduções Legais (Completo) e o Modelo por Desconto Simplificado.
A escolha errada aqui não gera multa, mas gera prejuízo financeiro direto: você pode pagar mais imposto do que deveria ou receber uma restituição menor.
Felizmente, essa é uma decisão matemática, não opinativa. Entenda como cada modelo funciona.
1. O Modelo Simplificado (O Desconto Padrão)
Este modelo foi criado para facilitar a vida do contribuinte que não tem muitas despesas dedutíveis (como solteiros sem filhos ou quem tem saúde de ferro).
Como funciona: A Receita Federal ignora todas as suas despesas com médicos, escola e dependentes. Em troca, ela aplica um desconto padrão de 20% sobre a sua renda tributável.
O Teto: Esse desconto de 20% não é infinito. Ele possui um valor limite (teto) fixado anualmente (historicamente na casa dos R$ 16.754,34, sujeito a ajustes).
Vantagem: Você não precisa comprovar despesas. Mesmo que você não tenha gastado um centavo com saúde, você ganha o desconto de 20%.
2. O Modelo Completo (Deduções Legais)
Este é o modelo tradicional, onde "cada centavo conta". Ele é indicado para quem possui muitas despesas dedutíveis.
Como funciona: A Receita soma todas as suas despesas comprovadas:
Dependentes;
Despesas Médicas (sem limite);
Educação (até o limite individual);
Previdência Privada (PGBL);
Livro Caixa (para autônomos).
A Regra: Se a soma de todas essas despesas for superior a 20% da sua renda (ou superior ao teto do desconto simplificado), o modelo Completo será mais vantajoso.
3. O mito da Malha Fina
Muitos contribuintes acreditam que o Modelo Completo "chama a atenção" do Leão e aumenta o risco de malha fina.
A Verdade: O risco só aumenta se você mentir ou errar. Se você tem os recibos médicos e escolares guardados e preencheu os valores corretamente, não há motivo para temer. O Modelo Completo é um direito seu de pagar o imposto justo sobre a sua renda real líquida.
4. O "Opçômetro" do Programa
A melhor notícia é que você não precisa fazer essa conta na calculadora. O próprio Programa Gerador da Declaração (PGD) possui um quadro comparativo no canto inferior esquerdo da tela, chamado "Opção pela Tributação".
Ele mostra, em tempo real:
Quanto imposto você pagaria/restituiria no Simplificado.
Quanto imposto você pagaria/restituiria no Completo.
Basta clicar na opção que resultar no menor imposto a pagar ou na maior restituição a receber.
5. Quando o Simplificado é obrigatório?
Não existe obrigatoriedade, mas uma limitação estratégica. Se você optar pelo Simplificado, você perde o benefício da dedução do PGBL.
Se você investiu em PGBL durante o ano pensando em abater 12% da renda, você precisa escolher o Modelo Completo. Se escolher o Simplificado, o desconto de 20% substitui o benefício do PGBL, e você terá jogado fora a vantagem tributária do plano.
Conclusão
A regra de bolso é: famílias com filhos, gastos médicos altos ou investimentos em PGBL quase sempre ganham no Modelo Completo. Jovens solteiros, sem dependentes e sem previdência privada, quase sempre ganham no Simplificado.
Deixe o programa fazer a conta, mas certifique-se de ter lançado todas as despesas antes de decidir.
Depois de escolher o modelo e enviar, a ansiedade se volta para uma única coisa: A Restituição. Quando ela cai? Quem recebe primeiro? E o PIX?
No próximo artigo: Restituição do Imposto de Renda: Calendário, Lotes e Prioridades.