No Imposto de Renda, a lógica de "quanto mais dependentes, melhor" nem sempre é verdadeira. Embora cada dependente garanta uma dedução legal de R$ 2.275,08 na base de cálculo, essa vantagem vem com um preço: a obrigatoriedade de informar os rendimentos desse dependente.
O problema surge quando o dependente possui renda própria (bolsa de estágio, salário, pensão ou aluguel). Ao trazê-lo para sua declaração, a renda dele se soma à sua, sendo tributada pela sua alíquota (que geralmente é mais alta), e não pela dele.
Entenda a matemática para não pagar imposto desnecessário.
1. O Conceito de Renda Somada
Imagine que você ganha um bom salário e já está na faixa máxima do IR (alíquota de 27,5%). Seu filho universitário começou um estágio e ganha R$ 1.500,00 por mês (R$ 18.000,00 por ano).
Sozinho: O filho seria isento de imposto, pois R$ 18 mil está abaixo do limite anual de tributação.
Como seu Dependente: Os R$ 18 mil do filho entram na sua declaração. Como você já está na faixa de 27,5%, esses R$ 18 mil serão tributados em 27,5%.
2. A Conta na Prática (Exemplo Real)
Vamos fazer a conta de padaria:
O Benefício: Ao incluir o filho, você ganha um desconto de R$ 2.275,08.
O Custo: Você terá que pagar 27,5% sobre os R$ 18.000,00 que ele ganhou.
Imposto Extra: R$ 18.000,00 x 27,5% = R$ 4.950,00.
Resultado:
Você economizou R$ 2.275,08.
Mas pagou R$ 4.950,00 a mais.
Prejuízo: R$ 2.674,92.
Neste caso, incluir o filho na declaração fez você perder dinheiro. A melhor estratégia seria deixá-lo declarar sozinho (como isento) ou nem declarar (se não for obrigado).
3. Quando NÃO vale a pena declarar?
Geralmente, a inclusão do dependente deixa de ser vantajosa em três cenários:
Filhos Estagiários: Bolsas de estágio são rendimentos tributáveis. Se o valor anual da bolsa superar os ~R$ 10.000,00, o imposto gerado costuma ser maior que a dedução fixa.
Cônjuge com Renda: Se o casal trabalha, declarar em conjunto quase sempre joga a família para uma alíquota superior. A soma dos salários faz o casal perder as faixas de isenção individuais.
Pais Aposentados: Se você declara seu pai como dependente para abater o plano de saúde dele, mas ele recebe aposentadoria tributável (acima da isenção dos 65 anos), a conta pode não fechar.
4. Quando VALE a pena (O "Salvador" das Despesas Médicas)
Existe uma exceção que inverte essa lógica: as Despesas Dedutíveis. Se o seu dependente tem renda, mas também tem muitas despesas médicas ou de instrução, pode valer a pena incluí-lo.
Exemplo: Voltando ao filho estagiário. Ele ganhou R$ 18 mil (gerando R$ 4.950 de imposto extra), mas fez uma cirurgia que custou R$ 10.000,00 e pagou R$ 5.000,00 de faculdade.
As deduções (R$ 2.275 fixo + R$ 10.000 médico + R$ 3.561 educação) somam mais de R$ 15 mil. Isso abaterá não só o imposto da renda dele, mas também ajudará a reduzir o seu.
5. Simule Antes de Enviar
Não tente adivinhar. O próprio programa da Receita Federal oferece a resposta exata.
Preencha a declaração com o dependente e anote o valor do "Imposto a Pagar" ou "Restituição".
Exclua o dependente (e os rendimentos/despesas dele) e veja como o valor muda.
Escolha a opção que doer menos no bolso.
Conclusão
Imposto de Renda é matemática, não emoção. Tirar um filho ou cônjuge da declaração não muda o vínculo afetivo, apenas a estratégia fiscal. Se o dependente tem renda tributável, ligue o sinal de alerta e faça as contas.
E já que estamos falando em escolhas que mudam o resultado final, a última decisão antes de enviar a declaração é crucial: Modelo Completo ou Simplificado? O programa diz qual é o melhor, mas você entende o porquê?
No próximo artigo: Completo ou Simplificado: Entenda a diferença e escolha o melhor modelo.